Era
uma vez uma menina órfã que vivia sozinha na floresta num casebre.
Próximo havia uma aldeia onde a menina ía todos os dias.
A única forma de se alimentar era através da venda de fósforos na rua.
Num dia de sorte conseguia vender o suficiente para comprar algum alimento.
Chegou o frio, e a menina só tinha a roupa que tinha vestida e não tinha sapatos.
Ela andou pelas ruas implorando que comprassem os seus fósforos.
Mas ninguém lhe prestava atenção.
Numa noite, mesmo não tendo lenha nem galhos resolveu acender uma fogueira usando somente os fósforos que tinha.
Ao riscar o primeiro fósforo o frio e a neve deixaram de existir dando lugar a uma sala com um fogão donde vinha um calor acolhedor. Ela sentiu-o e tentou se aproximar mais para senti-lo.
De repente o fogão desapareceu e a menina começou a tremer de frio.
Então ela acendeu mais um fósforo. E mais uma vez foi transportada para uma sala de jantar com um verdadeiro banquete. Mas assim que a menina esticou o braço para agarrar alguma comida o fósforo apagou-se e a sala desapareceu.
Estava novamente na neve e ao frio.
Já não sentia os pés gelados, nem as pernas.
Agora o frio estava a subir pelas costas e a causar formigueiro nos braços.
Acendeu mais um fósforo, e viu uma belíssima e grandiosa árvore de Natal.
A árvore ìa crescendo e mostrando os seus maravilhosos enfeites, velas brancas, pendentes de vidro e milhares pontinhos de luz que nem conseguia perceber o que eram.
Ela seguiu com o olhar o alto dessa árvore que não parava de crescer até que as luzinhas se transformaram nas estrelas do céu.
Uma estrela cadente surgiu no céu e ela recordou o que a sua mãe lhe disse. Quando uma estrela caísse do céu uma alma morria.
E de repente surgiu a sua carinhosa avó, envolvendo-a no avental e abraçou-a com doçura.
Mas o fósforo apagou-se e a avó começou a desaparecer.
Então a menina acendeu mais fósforos e cada vez mais fósforos para fazê-la ficar.
E enquanto acendia fósforo atrás de fósforo as duas juntas começaram a subir para o céu, onde não existia frio, fome e dor.
No dia seguinte, entre as casas, encontraram a menina morta.
ANÁLISE
Essa criança está num ambiente em que as pessoas não se importam com ela.
Se você está num ambiente desses, saia daí. Essa criança está num meio no qual o que ela tem, foguinhos em palitos, o início de toda a possibilidade criativa, não é valorizado. Essa criança está numa situação psíquica na qual há poucas opções. Ela se resignou ao seu “lugar” na vida.
O que a menina dos fósforos deve fazer? Se os seus instintos estivessem intactos, suas opções seriam inúmeras. Caminhar até outra cidade, esconder-se numa carroça, abrigar-se num depósito de carvão...a Mulher Selvagem saberia o que fazer em seguida, mas a menina dos fósforos não conhece mais a Mulher Selvagem. A pequena criança selvagem está morrendo de frio; tudo o que resta dela é uma pessoa que se movimenta como em transe. Estar com pessoas reais que nos aqueçam, que apoiem e elogiem nossa criatividade é essencial para a corrente da vida criativa. De contrário acabamos congeladas. O ambiente propício é um coro de vozes tanto interiores quanto exteriores que observa o estado do ser da mulher, tem o cuidado de incentivá-lo e, se necessário, também a conforta. Não tenho a certeza do número de amigos de que precisamos, mas decididamente um ou dois que considerem o seu talento, qualquer que ele seja, pan de cielo, o pão dos céus. Toda a mulher tem o direito a um coro de elogios.
Quando as mulheres estão ao relento, no frio, elas costumam viver de fantasias em vez de acção. Fantasias desse tipo são o grande anestésico. Há mulheres dotadas de vozes maravilhosas, e há mulheres contadoras inatas de histórias. Quase tudo que lhes sai da boca é de improviso e bem elaborado. Elas são tímidas, o que muitas vezes é um disfarce para um animus esfaimado. Elas têm dificuldade para perceber que recebem apoio de dentro, de amigos, da família ou da comunidade.
Para evitar o destino da menina dos fósforos há um importante passo que deve dar. Qualquer um que não apoie sua arte, sua vida, não é digno do seu tempo. É duro mas é verdade. Se não pensarmos assim adoptamos direito aos trapos da menina dos fósforos e somos forçadas a viver uma fracção de vida que mata pelo frio todo o pensamento, toda a esperança, talentos, escritos, alegrias, projectos e danças.
O calor deveria ser o principal alvo da menina e na história ele não é. Pelo contrário, ela tenta vender os fósforos, suas fontes de calor. Essa atitude não deixa o feminino nem um pouco mais quente, rico ou sábio, e impede o seu desenvolvimento futuro.
O calor é um mistério. Ele de certo modo nos cura e nos gera. Ele é quem solta o que está preso demais, propicia o movimento livre, o misterioso impulso de ser, o primeiro vôo das idéias novas. Não importa o que o calor seja, ele aproxima as pessoas cada vez mais.
A menina dos fósforos não está num ambiente em que possa se desenvolver. Não há calor, não há gravetos, não há lenha. Se estivéssemos no seu lugar, o que poderíamos fazer? Para começar, poderíamos não alimentar a fantasia que a menina cria ao acender os fósforos. Existem três tipos de fantasias.
O primeiro é a fantasia do prazer: uma espécie de sorvete mental, exclusivamente destinada à fruição, como quando sonhamos de olhos abertos.
O segundo tipo de fantasia é a formação intencional de imagens. Essa fantasia é como uma sensação de planeamento. Ela é usada como veículo para nos levar a agir. Todos os sucessos psicológicos, espirituais, financeiros e criativos, começam com fantasias dessa natureza.
E Existe ainda o terceiro tipo, aquela fantasia que paralisa tudo. É o tipo de fantasia que impede a acção adequada nos momentos críticos. Infelizmente essa é a fantasia criada pela menina dos fósforos. É uma fantasia que não tem nada a ver com a realidade. Ela está relacionada à sensação de que não há nada a ser feito e que não faz mal se mergulharmos numa fantasia vã.
Amigos que a amem e que tenham carinho pela sua vida criativa são os melhores sóis do mundo. Quando uma mulher como a menina dos fósforos, não tem nenhum amigo, ela também se sente congelada de angústia, bem como às vezes de raiva. Mesmo que se tenha amigos, eles podem não ser sóis. Eles podem confortá-la em vez de mantê-la informada das suas circunstâncias cada vez mais gélidas. Eles a consolam mas isso é muito diferente do cuidado e carinho. O cuidado e carinho levam a mulher de um lugar para outro. Eles são como cereais matinais psíquicos. A diferença entre consolo e o cuidado e carinho é a seguinte: se você tem uma planta que está doente porque a mantém num armário escuro e você lhe diz palavras tranquilizadoras, isso é consolo. Se você tira a planta do armário e a põe ao sol, lhe dá algo para beber e depois conversa com ela, isso é cuidado e carinho.
Uma mulher enregelada sem cuidado e sem carinho tem a propensão a se voltar para incessantes fantasias hipotéticas. No entanto, mesmo que ela esteja nessa condição de enregelamento, especialmente se ela estiver numa situação dessas, ela deve recusar a fantasia consoladora. É que esse tipo de fantasia nos deixará mortas sem a menor dúvida. Você sabe como essas fantasias letais se apresentam, “Um dia quem sabe...”, “Se ao menos eu tivesse...”, “Ele vai mudar...”, e “Se eu só aprender a me controlar...”, “Quando eu realmente estiver pronta...”, “Quando eu fizer o suficiente...”, “Quando as crianças crescerem...” , “Quando eu me sentir mais segura...”, “Quando eu encontrar outra pessoa...”, e assim por diante.
A menina dos fósforos tem uma avó interna que em vez de gritar com ela “Acorde! Levante-se! Não importa que custe, descubra um lugar quente!”, prefere levá-la para uma vida de fantasia, levá-la para o “céu”. Mas o céu não vai ajudar a Mulher Selvagem, a criança selvagem, ou a menina dos fósforos nessa situação. Essas fantasias consoladoras não devem ser detonadas. Elas são distracções sedutoras e letais que nos afastam do trabalho verdadeiro.
Vemos a menina dos fósforos fazer uma espécie de permuta, um tipo de troca maléfica, quando ela vende os fósforos, os únicos objectos que possui que poderiam aquecê-la. Quando as mulheres estão desconectadas do amor benéfico da mãe selvagem, elas estão vivendo com o equivalente a uma dieta de subsistência no mundo exterior. O ego mal consegue manter-se vivo, recebendo o mínimo de alimento de fora e voltando a cada noite ao ponto de onde começou, sem parar. Ali a menina adormece exausta.
Ela não pode despertar para uma vida com um futuro porque sua desgraça é como um gancho no qual ela se pendura todos os dias. Nas iniciações, passar algum tempo sob condições difíceis faz parte duma separação forçada da acomodação e do conforto. Como transição iniciática esse período tem seu término, e a mulher “recém-preparada” começa uma vida criativa e espiritual revitalizada e esclarecida. No entanto, poderia ser dito que as mulheres na situação da menina dos fósforos foram envolvidas numa iniciação que deu errado. As
condições hostis não servem para um aprofundamento, só para dizimar. É preciso que elas escolham um outro local, outro ambiente, com tipos diferentes de apoio e orientação.
Historicamente, e em especial na psicologia dos homens, a doença, o exílio e o sofrimento são muitas vezes compreendidos como uma separação iniciática, ocasionalmente com enorme significado. No entanto, para as mulheres, há outros arquétipos iniciáticos que têm origem na psicologia e no físico da mulher. Dar à luz é um deles; o poder do sangue é outro, assim como estar apaixonada ou ser objecto de um amor benéfico. Receber a benção de alguém mais velho do que ela: todas essas são iniciações intensas e que possuem suas próprias tensões e ressurreições.
Seria possível dizer que a menina dos fósforos chegou muito perto e no entanto ficou longe demais do estágio transicional de movimento e de acção que teria completado sua iniciação. Embora ela possua os meios para uma experiência iniciática na sua vida miserável, não há ninguém nem dentro nem fora dela que oriente o seu processo psíquico.
Em termos psíquicos, no sentido mais negativo possível, o inverno traz o beijo da morte, ou seja, uma frieza em tudo o que toca. A frieza representa o fim de um relacionamento. Se você quiser matar alguma coisa, basta agir com frieza. Assim que vemos congelado o nosso sentimento, pensamento ou actividade, o relacionamento não é mais possível. Quando os seres humanos querem abandonar alguma coisa dentro de si mesmos ou pretendem dar um “gelo” em alguém, eles os ignoram, deixam de convidá-los ou isolam-nos, fazendo o maior esforço para não terem de ouvir sua voz ou pôr os olhos sobre eles. É essa a situação na psique da menina dos fósforos.
A menina dos fósforos perambula pelas ruas e implora a desconhecidos que comprem os fósforos dela. Essa cena mostra um dos aspectos mais desconcertantes quanto ao instinto ferido das mulheres, a entrega da luz por um preço baixo. As pequenas luzes nos palitos são semelhantes às luzes maiores, às caveiras nas pontas das varas na história de Vasalisa. Elas representam a sabedoria mas, o que é mais importante, elas accionam a consciencialização, substituindo o escuro pela luz, reacendendo o que acabou se apagando. O fogo é o principal símbolo da revivificação na psique.
Temos aqui a menina dos fósforos em extrema necessidade, mendigando e oferecendo na realidade algo de muito valor, uma luz, em troca de dinheiro. Quer essa troca esteja dentro da psique, quer ela esteja vivenciada por nós no mundo objectivo, o resultado é o mesmo: maior perda de energia. Nessas circunstâncias, a mulher não consegue suprir suas próprias necessidades. Algo que quer viver implora pela vida mas não obtém resposta. Temos aqui alguém que como Sofia, o espírito grego da sabedoria, tira a luz das profundezas, mas a revende em espasmos de fantasia inútil. Maus amantes, patrões execráveis, situações de exploração, complexos ardilosos de todos os tipos atraem a mulher para essas escolhas.
Quando a menina dos fósforos resolve acender os fósforos, ela está usando seus recursos para fantasiar em vez de usá-los para agir. Ela queima sua energia de um modo quase instantâneo. Isso aparece com evidência na vida da mulher. Ela está determinada a entrar para a faculdade, mas demora três anos para decidir qual prefere. Ela vai fazer aquela série de quadros mas, como não tem lugar em que possa exibir o conjunto, não dá prioridade à pintura. Ela quer fazer isso ou aquilo, mas não reserva tempo para aprender, para desenvolver bem sua sensibilidade ou sua técnica. Ela tem dez cadernos cheios de sonhos, mas fica enredada no seu fascínio pela interpretação e não consegue pôr em acção o seu significado. Ela sabe que deve sair, começar, parar, avançar, mas não faz nada disso.
E assim compreendemos os seus motivos. Quando a mulher tem seus sentimentos congelados, quando ela não consegue mais sentir, quando seu sangue, sua paixão, não mais atingem as extremidades da sua psique, quando ela está desesperada; em todos esses casos, uma vida de fantasia é muito mais agradável do que qualquer outra coisa ao alcance dos seus olhos. A pequena chama dos seus fósforos por não ter nenhuma lenha para queimar, acaba queimando sua psique como se ela fosse uma grande acha seca. A psique começa a se iludir. Ela agora vive no fogo da fantasia da satisfação de todos os anseios. Esse tipo de fantasia é como uma mentira. Se você a repetir com bastante frequência começará a acreditar nela.
Esse tipo de angústia de conversão, na qual os problemas ou questões são minimizados com a entusiástica fantasia de soluções irrealizáveis ou de tempos melhores, não ataca apenas as mulheres; ele é o maior obstáculo enfrentado pela humanidade. O fogão na fantasia da menina dos fósforos representa pensamentos calorosos. Ele é também um símbolo do centro, do coração, da lareira. Ele nos diz que sua fantasia está à procura do self verdadeiro, do coração da psique, do calor de um lar interno.
De repente o fogão apaga-se. A menina dos fósforos, como todas as mulheres nesse tipo de aflição psíquica, descobre que está novamente sentada na neve. Vemos aqui que esse tipo de fantasia é momentâneo e destrutivo. Ele não tem nada para queimar, a não ser a nossa energia. Muito embora a mulher possa usar suas fantasias para se manter aquecida, ela mesmo assim acaba num frio profundo.
A menina acende outros palitos. Cada fantasia se extingue, e a a criança volta a congelar na neve. Quando a psique está gelada, a pessoa se volta para si mesma e para mais ninguém. Ela risca um terceiro fósforo. Ele é o número três dos contos de fadas, o número mágico, o ponto no qual algo de novo pode acontecer. Nesse caso porém, como a fantasia supera a acção nada de novo ocorre.
É irónico que haja uma árvore de Natal na história. A árvore de Natal evoluiu de um símbolo pré-cristão da vida eterna como a árvore que mantinha suas folhas verdes mesmo no inverno. Seria possível dizer que isso era o que poderia salvá-la, a idéia da psique da alma sempre verde, sempre crescendo, sempre em movimento. Mas o quarto não tem tecto. A idéia da vida não pode ser contida na psique. A ilusão assumiu o comando.
A avó é tão carinhosa, tão dedicada, e no entanto ela é a morfina final, o último trago de veneno. Ela atrai a criança para o sono da morte. Em seu sentido mais negativo esse é o sono da acomodação, o sono do entorpecimento – “Tudo be, dá para eu aguentar”; o sono da negação – “Basta que eu olhe para o outro lado”. Esse é o sono da fantasia maligna, no qual esperamos que todo o sofrimento físico desapareça como que por magia.
Trata-se de um facto psíquico que, quando a líbido ou a energia definha ao ponto de não mais se ver a respiração no espelho, a natureza da vida-morte-vida aparece, representada aqui pela avó. É a sua tarefa chegar no momento da morte de alguma coisa, de incubar a alma que deixou suas casca para trás e de cuidar dessa alma até que ela possa renascer.
Essa é a benção da psique de todo o mundo. Mesmo diante de um final doloroso quanto o da menina dos fósforos, há um raio de luz. Quando se reúnem tempo, insatisfação e pressão suficientes, a Mulher Selvagem da psique lançará vida nova na mente da mulher, dando-lhe a oportunidade de agir em seu próprio interesse mais uma vez. Como podemos ver pelo sofrimento envolvido, é muito melhor curar nossa dependência da fantasia do que aguardar, com desejo e esperança que sejamos ressuscitadas dos mortos.
Próximo havia uma aldeia onde a menina ía todos os dias.
A única forma de se alimentar era através da venda de fósforos na rua.
Num dia de sorte conseguia vender o suficiente para comprar algum alimento.
Chegou o frio, e a menina só tinha a roupa que tinha vestida e não tinha sapatos.
Ela andou pelas ruas implorando que comprassem os seus fósforos.
Mas ninguém lhe prestava atenção.
Numa noite, mesmo não tendo lenha nem galhos resolveu acender uma fogueira usando somente os fósforos que tinha.
Ao riscar o primeiro fósforo o frio e a neve deixaram de existir dando lugar a uma sala com um fogão donde vinha um calor acolhedor. Ela sentiu-o e tentou se aproximar mais para senti-lo.
De repente o fogão desapareceu e a menina começou a tremer de frio.
Então ela acendeu mais um fósforo. E mais uma vez foi transportada para uma sala de jantar com um verdadeiro banquete. Mas assim que a menina esticou o braço para agarrar alguma comida o fósforo apagou-se e a sala desapareceu.
Estava novamente na neve e ao frio.
Já não sentia os pés gelados, nem as pernas.
Agora o frio estava a subir pelas costas e a causar formigueiro nos braços.
Acendeu mais um fósforo, e viu uma belíssima e grandiosa árvore de Natal.
A árvore ìa crescendo e mostrando os seus maravilhosos enfeites, velas brancas, pendentes de vidro e milhares pontinhos de luz que nem conseguia perceber o que eram.
Ela seguiu com o olhar o alto dessa árvore que não parava de crescer até que as luzinhas se transformaram nas estrelas do céu.
Uma estrela cadente surgiu no céu e ela recordou o que a sua mãe lhe disse. Quando uma estrela caísse do céu uma alma morria.
E de repente surgiu a sua carinhosa avó, envolvendo-a no avental e abraçou-a com doçura.
Mas o fósforo apagou-se e a avó começou a desaparecer.
Então a menina acendeu mais fósforos e cada vez mais fósforos para fazê-la ficar.
E enquanto acendia fósforo atrás de fósforo as duas juntas começaram a subir para o céu, onde não existia frio, fome e dor.
No dia seguinte, entre as casas, encontraram a menina morta.
ANÁLISE
Essa criança está num ambiente em que as pessoas não se importam com ela.
Se você está num ambiente desses, saia daí. Essa criança está num meio no qual o que ela tem, foguinhos em palitos, o início de toda a possibilidade criativa, não é valorizado. Essa criança está numa situação psíquica na qual há poucas opções. Ela se resignou ao seu “lugar” na vida.
O que a menina dos fósforos deve fazer? Se os seus instintos estivessem intactos, suas opções seriam inúmeras. Caminhar até outra cidade, esconder-se numa carroça, abrigar-se num depósito de carvão...a Mulher Selvagem saberia o que fazer em seguida, mas a menina dos fósforos não conhece mais a Mulher Selvagem. A pequena criança selvagem está morrendo de frio; tudo o que resta dela é uma pessoa que se movimenta como em transe. Estar com pessoas reais que nos aqueçam, que apoiem e elogiem nossa criatividade é essencial para a corrente da vida criativa. De contrário acabamos congeladas. O ambiente propício é um coro de vozes tanto interiores quanto exteriores que observa o estado do ser da mulher, tem o cuidado de incentivá-lo e, se necessário, também a conforta. Não tenho a certeza do número de amigos de que precisamos, mas decididamente um ou dois que considerem o seu talento, qualquer que ele seja, pan de cielo, o pão dos céus. Toda a mulher tem o direito a um coro de elogios.
Quando as mulheres estão ao relento, no frio, elas costumam viver de fantasias em vez de acção. Fantasias desse tipo são o grande anestésico. Há mulheres dotadas de vozes maravilhosas, e há mulheres contadoras inatas de histórias. Quase tudo que lhes sai da boca é de improviso e bem elaborado. Elas são tímidas, o que muitas vezes é um disfarce para um animus esfaimado. Elas têm dificuldade para perceber que recebem apoio de dentro, de amigos, da família ou da comunidade.
Para evitar o destino da menina dos fósforos há um importante passo que deve dar. Qualquer um que não apoie sua arte, sua vida, não é digno do seu tempo. É duro mas é verdade. Se não pensarmos assim adoptamos direito aos trapos da menina dos fósforos e somos forçadas a viver uma fracção de vida que mata pelo frio todo o pensamento, toda a esperança, talentos, escritos, alegrias, projectos e danças.
O calor deveria ser o principal alvo da menina e na história ele não é. Pelo contrário, ela tenta vender os fósforos, suas fontes de calor. Essa atitude não deixa o feminino nem um pouco mais quente, rico ou sábio, e impede o seu desenvolvimento futuro.
O calor é um mistério. Ele de certo modo nos cura e nos gera. Ele é quem solta o que está preso demais, propicia o movimento livre, o misterioso impulso de ser, o primeiro vôo das idéias novas. Não importa o que o calor seja, ele aproxima as pessoas cada vez mais.
A menina dos fósforos não está num ambiente em que possa se desenvolver. Não há calor, não há gravetos, não há lenha. Se estivéssemos no seu lugar, o que poderíamos fazer? Para começar, poderíamos não alimentar a fantasia que a menina cria ao acender os fósforos. Existem três tipos de fantasias.
O primeiro é a fantasia do prazer: uma espécie de sorvete mental, exclusivamente destinada à fruição, como quando sonhamos de olhos abertos.
O segundo tipo de fantasia é a formação intencional de imagens. Essa fantasia é como uma sensação de planeamento. Ela é usada como veículo para nos levar a agir. Todos os sucessos psicológicos, espirituais, financeiros e criativos, começam com fantasias dessa natureza.
E Existe ainda o terceiro tipo, aquela fantasia que paralisa tudo. É o tipo de fantasia que impede a acção adequada nos momentos críticos. Infelizmente essa é a fantasia criada pela menina dos fósforos. É uma fantasia que não tem nada a ver com a realidade. Ela está relacionada à sensação de que não há nada a ser feito e que não faz mal se mergulharmos numa fantasia vã.
Às vezes essa fantasia está na mente da
mulher. Às vezes ela lhe chega numa garrafa de bebida, numa seringa ou na falta
dessas coisas, num alucinogénio ou ainda em quartos descartáveis
mobilados com uma cama e um desconhecido. As mulheres nessas situações estão
representando a menina dos fósforos em cada noite de fantasias e de mais
fantasias, acordando congeladas e inertes a cada amanhecer. Existem muitas
formas de perder o rumo, de perder o foco de atenção.
E o que poderá reverter essa situação e restaurar a auto-estima e o amor-próprio? Descobrir algo muito diferente do que a menina dos fósforos tinha. Precisa levar as suas idéias para um lugar onde elas encontrem apoio. Esse é um passo enorme concomitante com a volta ao foco de atençao: encontrar um lugar propício. Pouquíssimas mulheres têm condição de criar apenas com o próprio gás. Precisamos de todos os estímulos que pudermos encontrar.
A maior parte do tempo as pessoas têm idéias
fantásticas. E esse tipo de projectos precisam de ser acalentados e
alimentados. Eles precisam de apoio vital de pessoas carinhosas. A menina de
fósforos está aos frangalhos. Esteve por baixo tanto tempo que até lhe parece
que está por cima. Queremos nos colocar em situações nas quais, como as plantas
e as árvores, possamos nos voltar para o sol. Mas é preciso que haja um sol.
Para isso temos de nos mexer, não ficar simplesmente ali sentadas. Temos de
fazer alguma coisa para tornar diferente a nossa situação. Se não nos mexermos
estaremos de volta às ruas vendendo fósforos. E o que poderá reverter essa situação e restaurar a auto-estima e o amor-próprio? Descobrir algo muito diferente do que a menina dos fósforos tinha. Precisa levar as suas idéias para um lugar onde elas encontrem apoio. Esse é um passo enorme concomitante com a volta ao foco de atençao: encontrar um lugar propício. Pouquíssimas mulheres têm condição de criar apenas com o próprio gás. Precisamos de todos os estímulos que pudermos encontrar.
Amigos que a amem e que tenham carinho pela sua vida criativa são os melhores sóis do mundo. Quando uma mulher como a menina dos fósforos, não tem nenhum amigo, ela também se sente congelada de angústia, bem como às vezes de raiva. Mesmo que se tenha amigos, eles podem não ser sóis. Eles podem confortá-la em vez de mantê-la informada das suas circunstâncias cada vez mais gélidas. Eles a consolam mas isso é muito diferente do cuidado e carinho. O cuidado e carinho levam a mulher de um lugar para outro. Eles são como cereais matinais psíquicos. A diferença entre consolo e o cuidado e carinho é a seguinte: se você tem uma planta que está doente porque a mantém num armário escuro e você lhe diz palavras tranquilizadoras, isso é consolo. Se você tira a planta do armário e a põe ao sol, lhe dá algo para beber e depois conversa com ela, isso é cuidado e carinho.
Uma mulher enregelada sem cuidado e sem carinho tem a propensão a se voltar para incessantes fantasias hipotéticas. No entanto, mesmo que ela esteja nessa condição de enregelamento, especialmente se ela estiver numa situação dessas, ela deve recusar a fantasia consoladora. É que esse tipo de fantasia nos deixará mortas sem a menor dúvida. Você sabe como essas fantasias letais se apresentam, “Um dia quem sabe...”, “Se ao menos eu tivesse...”, “Ele vai mudar...”, e “Se eu só aprender a me controlar...”, “Quando eu realmente estiver pronta...”, “Quando eu fizer o suficiente...”, “Quando as crianças crescerem...” , “Quando eu me sentir mais segura...”, “Quando eu encontrar outra pessoa...”, e assim por diante.
A menina dos fósforos tem uma avó interna que em vez de gritar com ela “Acorde! Levante-se! Não importa que custe, descubra um lugar quente!”, prefere levá-la para uma vida de fantasia, levá-la para o “céu”. Mas o céu não vai ajudar a Mulher Selvagem, a criança selvagem, ou a menina dos fósforos nessa situação. Essas fantasias consoladoras não devem ser detonadas. Elas são distracções sedutoras e letais que nos afastam do trabalho verdadeiro.
Vemos a menina dos fósforos fazer uma espécie de permuta, um tipo de troca maléfica, quando ela vende os fósforos, os únicos objectos que possui que poderiam aquecê-la. Quando as mulheres estão desconectadas do amor benéfico da mãe selvagem, elas estão vivendo com o equivalente a uma dieta de subsistência no mundo exterior. O ego mal consegue manter-se vivo, recebendo o mínimo de alimento de fora e voltando a cada noite ao ponto de onde começou, sem parar. Ali a menina adormece exausta.
Ela não pode despertar para uma vida com um futuro porque sua desgraça é como um gancho no qual ela se pendura todos os dias. Nas iniciações, passar algum tempo sob condições difíceis faz parte duma separação forçada da acomodação e do conforto. Como transição iniciática esse período tem seu término, e a mulher “recém-preparada” começa uma vida criativa e espiritual revitalizada e esclarecida. No entanto, poderia ser dito que as mulheres na situação da menina dos fósforos foram envolvidas numa iniciação que deu errado. As
condições hostis não servem para um aprofundamento, só para dizimar. É preciso que elas escolham um outro local, outro ambiente, com tipos diferentes de apoio e orientação.
Historicamente, e em especial na psicologia dos homens, a doença, o exílio e o sofrimento são muitas vezes compreendidos como uma separação iniciática, ocasionalmente com enorme significado. No entanto, para as mulheres, há outros arquétipos iniciáticos que têm origem na psicologia e no físico da mulher. Dar à luz é um deles; o poder do sangue é outro, assim como estar apaixonada ou ser objecto de um amor benéfico. Receber a benção de alguém mais velho do que ela: todas essas são iniciações intensas e que possuem suas próprias tensões e ressurreições.
Seria possível dizer que a menina dos fósforos chegou muito perto e no entanto ficou longe demais do estágio transicional de movimento e de acção que teria completado sua iniciação. Embora ela possua os meios para uma experiência iniciática na sua vida miserável, não há ninguém nem dentro nem fora dela que oriente o seu processo psíquico.
Em termos psíquicos, no sentido mais negativo possível, o inverno traz o beijo da morte, ou seja, uma frieza em tudo o que toca. A frieza representa o fim de um relacionamento. Se você quiser matar alguma coisa, basta agir com frieza. Assim que vemos congelado o nosso sentimento, pensamento ou actividade, o relacionamento não é mais possível. Quando os seres humanos querem abandonar alguma coisa dentro de si mesmos ou pretendem dar um “gelo” em alguém, eles os ignoram, deixam de convidá-los ou isolam-nos, fazendo o maior esforço para não terem de ouvir sua voz ou pôr os olhos sobre eles. É essa a situação na psique da menina dos fósforos.
A menina dos fósforos perambula pelas ruas e implora a desconhecidos que comprem os fósforos dela. Essa cena mostra um dos aspectos mais desconcertantes quanto ao instinto ferido das mulheres, a entrega da luz por um preço baixo. As pequenas luzes nos palitos são semelhantes às luzes maiores, às caveiras nas pontas das varas na história de Vasalisa. Elas representam a sabedoria mas, o que é mais importante, elas accionam a consciencialização, substituindo o escuro pela luz, reacendendo o que acabou se apagando. O fogo é o principal símbolo da revivificação na psique.
Temos aqui a menina dos fósforos em extrema necessidade, mendigando e oferecendo na realidade algo de muito valor, uma luz, em troca de dinheiro. Quer essa troca esteja dentro da psique, quer ela esteja vivenciada por nós no mundo objectivo, o resultado é o mesmo: maior perda de energia. Nessas circunstâncias, a mulher não consegue suprir suas próprias necessidades. Algo que quer viver implora pela vida mas não obtém resposta. Temos aqui alguém que como Sofia, o espírito grego da sabedoria, tira a luz das profundezas, mas a revende em espasmos de fantasia inútil. Maus amantes, patrões execráveis, situações de exploração, complexos ardilosos de todos os tipos atraem a mulher para essas escolhas.
Quando a menina dos fósforos resolve acender os fósforos, ela está usando seus recursos para fantasiar em vez de usá-los para agir. Ela queima sua energia de um modo quase instantâneo. Isso aparece com evidência na vida da mulher. Ela está determinada a entrar para a faculdade, mas demora três anos para decidir qual prefere. Ela vai fazer aquela série de quadros mas, como não tem lugar em que possa exibir o conjunto, não dá prioridade à pintura. Ela quer fazer isso ou aquilo, mas não reserva tempo para aprender, para desenvolver bem sua sensibilidade ou sua técnica. Ela tem dez cadernos cheios de sonhos, mas fica enredada no seu fascínio pela interpretação e não consegue pôr em acção o seu significado. Ela sabe que deve sair, começar, parar, avançar, mas não faz nada disso.
E assim compreendemos os seus motivos. Quando a mulher tem seus sentimentos congelados, quando ela não consegue mais sentir, quando seu sangue, sua paixão, não mais atingem as extremidades da sua psique, quando ela está desesperada; em todos esses casos, uma vida de fantasia é muito mais agradável do que qualquer outra coisa ao alcance dos seus olhos. A pequena chama dos seus fósforos por não ter nenhuma lenha para queimar, acaba queimando sua psique como se ela fosse uma grande acha seca. A psique começa a se iludir. Ela agora vive no fogo da fantasia da satisfação de todos os anseios. Esse tipo de fantasia é como uma mentira. Se você a repetir com bastante frequência começará a acreditar nela.
Esse tipo de angústia de conversão, na qual os problemas ou questões são minimizados com a entusiástica fantasia de soluções irrealizáveis ou de tempos melhores, não ataca apenas as mulheres; ele é o maior obstáculo enfrentado pela humanidade. O fogão na fantasia da menina dos fósforos representa pensamentos calorosos. Ele é também um símbolo do centro, do coração, da lareira. Ele nos diz que sua fantasia está à procura do self verdadeiro, do coração da psique, do calor de um lar interno.
De repente o fogão apaga-se. A menina dos fósforos, como todas as mulheres nesse tipo de aflição psíquica, descobre que está novamente sentada na neve. Vemos aqui que esse tipo de fantasia é momentâneo e destrutivo. Ele não tem nada para queimar, a não ser a nossa energia. Muito embora a mulher possa usar suas fantasias para se manter aquecida, ela mesmo assim acaba num frio profundo.
A menina acende outros palitos. Cada fantasia se extingue, e a a criança volta a congelar na neve. Quando a psique está gelada, a pessoa se volta para si mesma e para mais ninguém. Ela risca um terceiro fósforo. Ele é o número três dos contos de fadas, o número mágico, o ponto no qual algo de novo pode acontecer. Nesse caso porém, como a fantasia supera a acção nada de novo ocorre.
É irónico que haja uma árvore de Natal na história. A árvore de Natal evoluiu de um símbolo pré-cristão da vida eterna como a árvore que mantinha suas folhas verdes mesmo no inverno. Seria possível dizer que isso era o que poderia salvá-la, a idéia da psique da alma sempre verde, sempre crescendo, sempre em movimento. Mas o quarto não tem tecto. A idéia da vida não pode ser contida na psique. A ilusão assumiu o comando.
A avó é tão carinhosa, tão dedicada, e no entanto ela é a morfina final, o último trago de veneno. Ela atrai a criança para o sono da morte. Em seu sentido mais negativo esse é o sono da acomodação, o sono do entorpecimento – “Tudo be, dá para eu aguentar”; o sono da negação – “Basta que eu olhe para o outro lado”. Esse é o sono da fantasia maligna, no qual esperamos que todo o sofrimento físico desapareça como que por magia.
Trata-se de um facto psíquico que, quando a líbido ou a energia definha ao ponto de não mais se ver a respiração no espelho, a natureza da vida-morte-vida aparece, representada aqui pela avó. É a sua tarefa chegar no momento da morte de alguma coisa, de incubar a alma que deixou suas casca para trás e de cuidar dessa alma até que ela possa renascer.
Essa é a benção da psique de todo o mundo. Mesmo diante de um final doloroso quanto o da menina dos fósforos, há um raio de luz. Quando se reúnem tempo, insatisfação e pressão suficientes, a Mulher Selvagem da psique lançará vida nova na mente da mulher, dando-lhe a oportunidade de agir em seu próprio interesse mais uma vez. Como podemos ver pelo sofrimento envolvido, é muito melhor curar nossa dependência da fantasia do que aguardar, com desejo e esperança que sejamos ressuscitadas dos mortos.
